A Gabi, rolando de rir, em Porto Alegre.


SOB O DOMÍNIO DO MEDO

Agora posso me considerar um homem feliz, vivendo em um país livre, como canta o cubano Silvio Rodriguez. Amo a uma mulher clara, que a mim me ama, sem pedir nada, ou quase nada, que não é o mesmo, mas é igual. E, claro, depois desta tradução livre e capenga, sou feliz também porque tenho o direito de comprar uma arma em qualquer loja. E como armas têm apenas um propósito, que é atirar balas, sinto-me totalmente confiante e sem medo. Claro, como diziam os latinos, "nec spec nec metu", se não tenho medo, também não posso ter esperanças. E é esta a questão que não foi debatida. Talvez nada mude, talvez mude tudo, exatamente por uma coisa chamada "Consciência de massas".

Engana-se quem acredita que a maior criação abstrata do poder humano tenha sido a invenção de Deus. Os poderes só ficaram satisfeitos quando, para contrapor a idéia da bondade, da criação, da divindade e da idéia de justiça metafísica, criaram também a figura do Diabo, que, pelo fato de ser, por excelência, a representação do mal, tem mais de um nome. Ao contrário de Deus, que muda de nome apenas quando muda de língua. Guimarães Rosa, no genial e ainda pouco lido Grande Sertão: Veredas, arranja muito mais do que uma dezena de apelidos para o demo, capeta, satanás coisa-ruim e etecétera. Aliás, depois da invenção do Diabo, o ser humano passou a ter medo até mesmo da palavra etecétera, essa coisa que quer dizer que ainda há muito mais por vir.

Agora que a sociedade abriu mão de delegar ao Estado sua função de nos proteger, votando majoritariamente no "não", deveria também, por coerência (sei que é cobrar demais da sociedade alguma coerência), deixar de pagar seus impostos, pois o Estado não precisará mais gastar com o item segurança. Assim como foi feito com a educação. Já que ninguém mais usa a educação pública, cobra sua qualidade, paga mal seus professores, para que contribuir com o Estado por um serviço que não existe?

Agora sou um homem feliz. E para não enferrujar minha arma, que comprei ali na esquina, tenho que usá-la. Sairei por aí atirando em passarinhos, em sapos e, claro, se algum bandido me assaltar, pedirei a ele que espere eu atirar primeiro. Serei um herói, é claro, mas o demônio me perseguirá para o resto da vida, até que eu prove minha legítima defesa.

Além da sacada genial da invenção Divina, e depois a do Diabo, foram as invenções da propriedade (que, segundo Proudhon, toda ela é um roubo) e da legítima defesa. Uma ligada a outra, pois só se mata legitimamente para proteger a propriedade.

Agora sou um homem feliz, mesmo sob o domínio do medo. Agora tenho certeza de que devo temer o próximo, seja ele uma pessoa considerada "do bem", seja ela "do mal", mesmo que eu não acredite nesse maniqueísmo mais do que superado pela história. Mas a sociedade, ao votar no "não", quis dizer também que existe o mal e o bem. Vejam que ironia. Logo eu que acreditava, como Rousseau, Sartre, Foucault e mais uma penca de gente sabida, que ninguém nasce bom ou mau, mas nos fazemos bons ou maus.

Fazer o quê? Estes filósofos não sabem nada da vida prática, desconheceram assaltos, nunca moraram no Brasil e viviam lendo. Estes filósofos foram muito ignorantes. Nós, brasileiros, felizes, armados, mesmo sob o domínio do medo, somos muito mais inteligentes do que toda esta vã filosofia.

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]



Meu Perfil
BRASIL , Sul , FLORIANOPOLIS , TRINDADE , Homem , de 36 a 45 anos , Portuguese , Spanish , Sexo , Tabacaria
MSN -

 
Visitante número: