Fifo, Ruy Barbosa, Iur Renato e eu, na reuniâo de pauta do Ego.


O beijo, as aves

Existem alguns fatos, comentários, canções e debates que, por mais que não queiramos saber deles, acabam batendo em nossa porta. Ninguém passa pelo mundo sem ouvir pagode ou canções brego-melosas, assim como, mesmo sem assistir novelas, todos os brasileiros, inclusive este escriba aqui, tomaram ciência de que o último telefolhetim apresentaria um beijo na boca entre dois homens. Durante as prévias da comentada cena, que nem aconteceu, ouve uma espécie de escândalo pequeno burguês, típico de uma sociedade que é moralista apenas por comodidade, pois em séculos de história ainda não aprendeu, "o tempora o mores", que os costumes são apenas invenções de um determinado tempo e não são eternos. Como escreveu o poeta Drummond: "Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será.

Nunca beijei homens na boca, mas nada tenho contra os que beijam. Todos os dias, em todos os canais de televisão do país são exibidas cenas - estas sim repugnantes e nojentas - de homens brigando, se enchendo de porradas, se matando. Contra esta indecência não existe manifesto, repúdio ou reclamação. Somos tão bárbaros e acostumados com uma moral que nem fomos nós que a inventamos - mas sim nossos ancestrais, brancos, europeus e cristãos - que não nos damos conta desta despropositada aceitação moral, de que vale soco, sangue e dente quebrado, mas ficamos petrificados moralmente com um beijo.

De qualquer modo, com beijo ou sem beijo, cientistas, biólogos, epidemiologistas e zoólogos debatem a possibilidade ou não de haver uma pandemia, semelhante à gripe espanhola de 1918, que matou 20 milhões de pessoas no mundo, incluindo o presidente brasileiro Rodrigues Alves. Os mais alarmistas, ou realistas, estimam que a gripe aviária pode infectar até 40% da população mundial. Nem mesmo Hitler teve, ou George Bush tem, tanto poder assim de matar quanto um franguinho, ou um ganso migratório, cuja função nessa vida é voar de um hemisfério a outro sem pagar passagem de avião, e cuja semelhança conosco, além de sermos bípedes, é perpetuar a espécie.

Nem sei porque misturei beijo com aves e uma possível pandemia. Talvez seja pelo fato de que na Idade Média, onde floresceu este moralismo do qual não conseguimos nos livrar, houve uma peste - desta vez por causa dos ratos - que matou muita gente. E destes, houve uma porção razoável que viu nos camundongos bubônicos uma espécie de castigo divino por causa de uma suposta imoralidade. Pelo mesmo motivo houve uma injusta e desumana perseguição, e pessoas foram queimadas apenas porque pensaram diferente e que não estavam nem aí para a vida privada dos outros. Se beijavam, se rezavam, se ouviam pagode ou não, era um problema de cada um.

A gripe que nos ronda é um problema a ser debatido coletivamente. Já a sexualidade é um problema íntimo e deve ser resolvido intimamente, mesmo que as manifestações sejam públicas. Curioso é que falo aqui de um beijo que nem aconteceu, mas continuo mesmo é preocupado com os espirros destes seres alados que - além de me causarem inveja porque não sei voar - podem acabar com metade da população desse planeta.

Apesar desta defesa de um gesto que em nada me choca, por ser um ato de amor, continuarei beijando na boca apenas as mulheres, mas ficarei bem longe destes terríveis animais cheios de penas, asas, bicos e que espirram sem moral alguma.

Diário Catarinense, 12 de novembro de 2005

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