O FIM DA VIDA COLETIVA

A História existe para lembrar das coisas que todos esquecem, escreveu um dos mais importantes historiadores do mundo, Eric Hobsbawm. E o que torna a tarefa dos historiadores muito mais palatável é a vida coletiva. Desde a infância, pais, mães, avós, vizinhos e a escola se auto-alimentam de história, fazendo com que erros do passado sirvam como exemplo das coisas que não podem mais acontecer, assim como acertos devem ser repetidos e, se possível, melhorados.

Hoje, além de se comemorar o humorista e a mentira, é também o dia em que deve ser lembrado que, há 42 anos, o Brasil sofreu um golpe de estado que aniquilou de vez a educação e o futuro de várias gerações. Poucos se dão conta, mas o movimento, apoiado pelos Estados Unidos da América, para depor o presidente João Goulart, deixou uma herança das mais avassaladoras, tornando o Brasil de hoje com a pior distribuição de renda do planeta, com uma violência infinitamente maior do que muitos países em guerra civil, um índice de analfabetismo funcional que é considerado um dos maiores do mundo e uma vida coletiva totalmente esfacelada.

A identidade nacional, que poderia muito bem ser a música genial de Tom Jobim, o cinema dilacerante de Glauber Rocha, a arquitetura deslumbrante de Lina Bo Bardi, o método de educação mais citado no mundo da pedagogia, do genial (porém esquecido no Brasil) Paulo Freire – sinais históricos de uma opulência intelectual nas décadas que antecederam o golpe de estado – tornou-se hoje apenas o drilble de Ronaldinho Gaúcho e a bunda da Carla Perez. E o que é mais infame, a maioria dos brasileiros acredita que isto é muito bacana e dignificante.

Mesmo que seja muito fácil fazer uma crítica generalizada ao próprio povo, que elege sua identidade, deve se pensar primeiro que, se um Estado não dá a menor condição para que seus cidadãos consigam compreender os processos políticos, históricos e culturais, que comdições este mesmo povo terá para fazer a crítica correta? Em resumo, o Estado alimentou a ignorância popular, que retroalimenta a ignorância do Estado.

Algumas coisas eu compreendo, mesmo não aceitando. Outras, aceito, mesmo não compreendendo. Ditadura, por exemplo, é uma coisa que não compreendo e não aceito. Se um povo paga impostos para que possa ter uma vida coletiva saudável, chega ser ridículo que meia-dúzia de despreparados e ignorantes, sejam de esquerda, sejam de direita, digam o que deve e o que não deve ser dito, o que pode e o que não pode ser feito.

Por mais que a democracia ainda cause fenômenos estéreis intelectualmente, ainda assim é a vontade popular que deve ser levada em conta. É a maioria que decide. Governantes não têm poderes absolutos com a conquista de seus cargos nas urnas. As leis, estas feitas para o Estado, são muito mais importantes do que qualquer governo de plantão. O que precisa ser feito com máxima urgência neste país, para que daqui a trinta ou quarenta anos futuras gerações possam viver em uma vida coletiva novamente, é exigir já uma educação de altíssima qualidade e gratuita. Aliás, gratuita coisa nenhuma. Já pagamos impostos suficiente para que a educação seja apenas um dos serviços que o Estado deve aos cidadãos.

Talvez seja uma trista constatação, mas a tarefa é convencer a população de que só a educação e a cultura podem reverter o quadro. Será preciso educar para a educação. A que ponto chegamos. No mais, que ninguém esqueça de que não faz muito tempo, um cidadão não poderia sequer escrever isto tudo. Para isto serve a história.

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